quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Marvada Pinga

“Eu bebo da pinga porque gosto dela
Eu bebo da branca, bebo da amarela
Bebo nos copo, bebo na tijela
E bebo temperada com cravo e canela
Seja quarqué tempo, vai pinga na guela
Oi lá…”

Marvada Pinga - Inezita Barroso

Tem quem demonize o consumo da Danada. E há os que não dispensam uma Dengosa. O é amado, temido, respeitado, criticado, louvado em canções e rejeitado em hinos. Mas a aguardente feita da garapa da cana de açúcar é - indubitavelmente - a bebida que mais tem a cara do Brasil. Surgida entre os anos de 1516 e 1532, provavelmente no litoral paulista, é o primeiro destilado da América Latina, mostrando que a embriaguez também foi pioneira por aqui.

Seu nome oficial tem duas origens prováveis, ambas bastante ordinárias: ‘cachaza’ - vinho de borra, bebida inferior consumida na península ibérica; ou ‘cachaça’ - a fêmea do cachaço, porco do mato, cuja carne dura era amaciada pelo uso da birita. E até hoje é usada para amaciar carnes de bicho e de gente por aí.

Mas se o nome é comum, o preço pode chegar as alturas: teve Água-que-passarinho-não-bebe sendo vendida por R$ 212 mil com diamantes e tal e coisa. E com esse preço, nem o passarinho, nem eu. Mas tem o outro lado do alambique - as chamadas ‘barrigudinhas’ - cachaças clandestinas que vem em embalagens de 490 ml e custavam R$ 1 e foram caso de saúde pública.

Tirando as más intenções de gente inescrupulosa e as frescuras dos que querem mais imagem que conteúdo, fica o legado de bons produtores da Limpa-goela. Existem alambiques produzindo Cambeixa de qualidade em todo o Brasil, por preços justos e dos mais diversos estilos. Diferente de outros tipos de destilado, a Uca pode envelhecer em diversas madeiras diferentes como bálsamo, canela, amburana, castanheira, grápia, jequitibá, carvalho...

E tem a Branquinha, sem envelhecimento, ideal para preparar o coquetel tupiniquim mais famoso do mundo: a caipirinha. E, nesse quesito eu sou purista: caipirinha só tem quatro ingredientes! Limão (não maracujá, pimenta-rosa, carambola, gengibre, abacaxi, physalis…), Açúcar (não adoçante, mel, melaço, xarope…), Cachaça (não Vodka, Rum, Tequila, Grappa, Sakê….) e Gelo. Dá pra fazer as “caipirinhas de…”, e aí você completa o nome do coquetel com a fruta que quiser. Fora isso, o resto pode ter outro nome.

Ter medo da Marvada é ter medo de ser brasileiro. Pra encarar Aquela-que-matou-o-guarda e sair vivinho da silva só precisa de moderação. E talvez uma moda de viola pra acompanhar, ‘Oi lá’!

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